Um dramaturgo atravessa o país e, ao chegar à floresta, percebe que o teatro foi descoberto pelos povos indígenas. Nesse encontro, passa a redescobrir a arte do movimento. Essa é a história vivida por João das Neves, cuja trajetória se entrelaça com os caminhos do Rio Jordão e com a vida do povo indígena Kaxinawá, no Acre. Da vivência com os povos escreveu o livro O Encenador e a Floresta, onde textos inéditos do período em que esteve no estado amazônico, nos anos de 1986 e 1991, registram a articulação entre ambientalistas, artistas colaboradores e movimentos indígenas, sob a lente das artes cênicas.
Entre a floresta, os rios e a vivência com o povo Huni Kuin (Kaxinawá), Neves encontrou histórias, novas linguagens e uma nova maneira de compreender não só o teatro, mas “os processos constantes de recriação (do mundo)”, observa Mara Vanessa, organizadora da obra lançada pela editora Relicário. Para ela, os textos são um testemunho de uma época em que os povos lutaram pelo direito a seus territórios e a determinação de manter forte e viva sua cultura local, resistência que segue sendo atual. “Essa luta é contínua. Não acabou, nem parece que vai acabar. Os textos de João somam-se a essa luta. A arte traz as questões da vida para a cena, promove reflexão, não deixa a memória ser apagada, traz a beleza das culturas e da vida para o centro”, relata à Fórum.
Os Huni Kuin, também conhecidos como Kaxinawá, pertencem à família linguística Pano, e habita a floresta amazônica entre o leste do Peru e o oeste do Brasil. Eles se autodenominam Huni Kuin, expressão que significa “gente verdadeira” ou “pessoas com costumes conhecidos”. O nome “Kaxinawá” foi dado por outros povos, segundo o Instituto Sociambiental. Antes da chegada dos colonizadores, os Huni Kuin viviam de forma autônoma na floresta.
A partir do final do século XIX, com o ciclo da borracha, seringueiros invadiram suas terras. Muitos grupos foram forçados a trabalhar para patrões de seringais, e alguns chegaram a participar de conflitos entre povos indígenas a mando desses patrões. No início do século XX, os povos precisaram fazer deslocamentos migratórios e alguns Huni Kuin migraram do Brasil para o Peru após conflitos com seringalistas. Com o tempo, famílias de ambos os lados voltaram a se relacionar por meio de migrações. Em 1951, após a visita de pesquisadores estrangeiros, ocorreu uma epidemia de sarampo que matou cerca de 75–80% da população adulta em algumas aldeias. Posteriormente, missionários e organizações linguísticas criaram aldeias organizadas, como a comunidade de Balta no Peru.
O desenho verdadeiro, Kene Kuin, segue sendo parte importante da identidade Kaxinawá. Os povos vizinhos (Kulina, Yaminawa, Kampa) não têm um estilo de desenho comparável ao kene kuin. Para os Kaxinawá o desenho é um elemento crucial na beleza da pessoa e das coisas. Mas até hoje ninguém contou sobre o teatro dos Kaxinawá.
Como os Kaxnawá descobriram o teatro
O livro é dividido em três textos escritos em diferentes estilos, tratando das relações entre as artes cênicas e o universo indígena: ‘Como os Kaxinawá descobriram o teatro’, ‘O teatro e a floresta’ e ‘Diário de Viagem ao Yuraiá’. “A arte contemporânea dos povos indígenas está mais reconhecida que há 20 ou 30 anos nas artes plásticas, no cinema, na literatura”, diz. O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) é um dos poucos museus com um acervo dedicado à arte indǵena Huni Kuin.
O primeiro capítulo narra o encontro entre práticas cênicas do teatro ocidental e as formas expressivas do povo Huni Kuin. A partir de sua convivência com comunidades indígenas na Amazônia, o autor relata como a proposta de realizar atividades teatrais despertou interesse imediato entre os participantes. Em vez de apresentar o teatro como uma linguagem completamente nova, João aprendeu com os povos como se faz teatro e identificou afinidades profundas entre a prática teatral e as tradições já presentes na vida cultural do povo originário.
“É cada vez mais importante perceber o fazer artístico desses povos não apenas como busca de diálogo intercultural com os não indígenas, mas também com processos constantes de recriação (do mundo), de cura (planetária). Para além da resistência”, diz Vanessa. “A troca se fazia ali, no ato. No Diário, em uma bela reflexão de João sobre essa relação entre o teatro, tal como o concebemos e praticamos, e a arte ancestral da contação de histórias, tão significativa para os povos originários.”
Ou seja, a arte não é apenas representação estética nem apenas instrumento de diálogo com a sociedade não indígena: ela participa ativamente da relação da vida social e ambiental. Mara também comenta sobre a importância do prefácio ser escrito por um autor indígena que é uma das maiores referências indígenas na literatura do Brasil, mas principalmente por ser amigo de João e acompanhá-lo nessa trajetória. “Ele é um grande conhecedor da vida dos povos indígenas do Acre. Hoje, sendo Ailton Krenak a referência que é quando se fala de povos indígenas no Brasil, o fato de ter um prefácio dele no livro, é, de certa maneira, um tributo a essa amizade”, descreve Vanessa. É a mesma percepção da cantora Titane, que também participou da organização do livro. “Ailton Krenak e Ibã Huni Hui (do coletivo Mahku, que enviou o desenho de capa), são amigos de João e com ele mantiveram diálogo desde o período em que esteve no Acre.”
“O entrelaçamento entre estes três Txai´s é um entrelaçamento de ideias, de imagens, conexões de pensamentos sobre o mundo que nos ajudam a entender as possibilidades de construirmos relações harmoniosamente férteis (e não beligerantes) entre as culturas indígenas e não indígenas. Entre os povos. Tanto no teatro quanto no cinema, no audiovisual, a presença indígena é crescente e significativa e redimensiona linguagens”, afirma.
João fazia teatro para falar da realidade do mundo. “E nesta realidade ele enxergava movimentos coletivos. E indivíduos em relações de sobrevivência, de afeto, de poder. Entendia que toda arte era política. Desde que enraizada no mundo, toda arte é política”, diz Titane.
“Os saberes indígenas impactaram não apenas a linguagem cênica desenvolvida por João. Através de sua produção artística, percebe-se que os indígenas, seus Txai`s, impactaram sua vida e seu pensamento, iluminaram inquietações estéticas e éticas”
Ao ler o texto teatral YURAIÁ, o rio do nosso corpo, a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha destacou a força da obra de João das Neves. “Considero excepcional a qualidade desta peça. João das Neves tem a arte de pôr em cena o real, com seus personagens surreais: o dia a dia dos seringueiros Kaxinawá, mais tudo o que o perpassa, o mito, a caiçuma, a sedução, a luta. É difícil encontrar uma descrição menos piegas e mais fiel do que é ser índio no Brasil hoje”, escreveu.
Para a artista, a experiência compartilhada do dramaturgo talvez tenha sido fértil por ele ter sido um grande observador da natureza humana, “que não se inibia diante de suas imensas, complicadas e contraditórias possibilidades. Investigador contumaz e agregador, para ele teatro se faz em grupo, assim como a vida. Seu pensamento criador apostava na pesquisa, no estudo, na leitura. Mas, acima de tudo, sua obra nascia da vida que se vive junto, na festa e na luta”, completa Titane.
A Associação Campo das Vertentes, coletivo artístico do qual João das Neves foi um dos fundadores, concebeu uma série de publicações dedicadas à sua trajetória e produção artística. A primeira delas, Estado de Arte – João das Neves e Minas Gerais, reúne informações detalhadas sobre os espetáculos realizados pelo diretor em Minas Gerais, estado onde viveu seus últimos 25 anos de vida. Já a segunda publicação, O Encenador e a Floresta, produzida em parceria com a Relicário Edições, foi concebida a partir de textos assinados pelo próprio dramaturgo. Confira um trecho do prefácio:
“Encantamento com a cultura de um povo da floresta, experiência mítica para quem ansiava outros mundos. Com seus alunos indígenas, João pôde levar ao palco seus amigos Kaxinawa, abrindo uma colaboração artística incomum, onde os corpos traziam sentidos e subvertiam a forma. Com seus kene escritos no corpo (yura), descobriam novas maneiras de contar antiguidades no palco.” -Ailton Krenak
Matéria na íntegra: https://revistaforum.com.br/cultura/com-prefacio-de-ailton-krenak-livro-joga-luz-sobre-as-artes-indigenas-para-alem-da-resistencia/
09/03/2026