Autran Dourado escreveu sobre a condição humana como poucos. Quem afirmou isso foi a Unesco, ao incluir a obra do escritor mineiro ao lado de clássicos mundiais como Homero, Shakespeare e Cervantes, na coleção de obras representativas da literatura universal.
Autor de mais de 20 livros, ele venceu o prêmio Jabuti com "Imaginações Pecaminosas", recebeu o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e o Camões, reconhecimento máximo da literatura de língua portuguesa.
Apesar de toda sua importância literária, pouco se fala hoje de Waldomiro Freitas Autran Dourado, nome completo do autor nascido há cem anos, em 18 de janeiro de 1926, em Patos de Minas.
Em 2022, na ocasião dos dez anos de sua morte, Dourado teve um de seus livros mais famosos reeditado pela HarperCollins, "Ópera dos Mortos".
Publicado originalmente em 1967, o romance conta a história de Rosalina, uma mulher que vive reclusa em um sobrado construído por seu avô e seu pai. Isolada do convívio social, a protagonista tem como companhia apenas uma empregada muda e relógios parados, que registram o horário da morte de seus pais.
O realismo mágico que já se anuncia na premissa da obra é uma das marcas da literatura de Autran Dourado e o tornou referência para autores contemporâneos como Milton Hatoum e Socorro Acioli.
Outra de suas obras mais celebradas é "Uma Vida em Segredo", publicada em 1964. A história de Biela, uma moça crescida na roça que se muda para a cidade, alçou Dourado para uma carreira internacional e também o levou para o cinema. O livro foi adaptado em 2001 por Suzana Amaral.
Apesar de ter se mudado para o Rio de Janeiro em 1954 e passado a maior parte de sua vida por lá, suas obras de maior sucesso abordavam Minas Gerais. Suas criaturas solitárias e tipos primitivos estavam atrelados ao cenário interiorano onde nasceu e cresceu.
A capital carioca foi, para Dourado, uma maneira de fugir desse cenário para um novo, onde seu foco era o trabalho. Durante as décadas de 1950 e 1960, foi secretário de imprensa do presidente Juscelino Kubitschek. Mas, como contou em entrevista à Folha em 2005, seu caminho o levaria à literatura. "É também uma fatalidade. Você é destinado à literatura, e não a literatura a você."
Autran Dourado morreu aos 86 anos em 30 de setembro de 2012, em seu apartamento em Botafogo, no Rio de Janeiro, em decorrência de uma hemorragia estomacal.
Matéria na íntegra: https://www.diariodecuiaba.com.br/ilustrado/quem-foi-autran-dourado-autor-mineiro-que-venceu-o-camoes-e-faria-100-anos/727503
22/01/2026