A cidade de Niterói recebe uma homenagem de peso à literatura brasileira. Em cartaz no Espaço Cultural Correios, a mostra da artista visual Graça Craidy celebra os 70 anos de “Grande Sertão: Veredas”, obra-prima de João Guimarães Rosa. Além disso, a exposição amplia o acesso público à cultura com entrada franca.
Mostra reúne 50 obras e retrata personagens centrais do romance
Aberta no sábado (7/2), a exposição permanece em cartaz até 28 de março, no Espaço Cultural Correios, em Niterói. A mostra reúne 50 obras, com destaque para retratos dos personagens do livro e do próprio autor.
Personagens de Guimarães Rosa ganham retratos em múltiplas técnicas
Entre os personagens retratados, em acrílica, aquarela e pastel oleoso, sobre tela e papel, estão:
Riobaldo
Diadorim
Joca Ramiro
Hermógenes
Zé Bebelo
Otacília
Nhorinhá
Manuelzão
Sô Candelário
Quelemém
Guimarães Rosa também aparece na exposição
O escritor, eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, aparece em dois retratos. Em um deles, surge a cavalo, no Cerrado mineiro, ao lado de vaqueiros — excursão que de fato ocorreu no período em que coletava dados para escrever a obra. A flora e a fauna da região que ambienta a narrativa também aparecem na mostra, com coqueiros buritis, pássaros e aves criados pela artista.
Pesquisa e preparação da artista para a homenagem
Para dominar a temática e ampliar a inspiração, Graça Craidy, de 74 anos, que vive e tem ateliê em Porto Alegre, não apenas leu o romance como fez o curso Travessia sobre o livro. Durante o curso, leu, releu e debateu a narrativa por meses com a professora da USP Maria Cecilia Marks.
Além disso, a artista pesquisou teses, monografias e ensaios sobre a obra e assistiu algumas vezes ao monólogo “Riobaldo”, protagonizado pelo ator carioca Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad. O ator fará um pocket show na abertura da exposição no Espaço Cultural Correios.
Trabalho expressionista e apaixonado
“Espero que os visitantes se encantem com a história em quadros do meu ‘Grande Sertão’ particular, expressionista, apaixonado, de cores turvas, ternas e terrosas. Em cada personagem, cena, gesto, o meu gentil convite para despertar nas pessoas o desejo de ler esse grande romance”, diz Graça.
Com “Grande sertão”, é a quinta vez que a artista une sua arte à literatura. A primeira foi na coleção “Clarices”, de 33 retratos de Clarice Lispector. A segunda e a terceira foram nas coletivas “Autorias I” e “Autorias II”, que organizou e participou ao lado de 42 artistas gaúchos que retrataram 51 escritores do Rio Grande do Sul. Já “Erico”, em novembro e dezembro de 2025, homenageou os 120 anos de nascimento de Erico Verissimo, com curadoria e participação da própria Graça junto com 46 colegas.
Inovação linguística e relevância histórica do romance
Mineiro de Cordisburgo, Guimarães Rosa morava no Rio, na Rua Francisco Otaviano, 33, em Copacabana, quando escreveu as quase 600 páginas de “Grande Sertão: Veredas”. Ao entregar os originais à Editora José Olympio, em fevereiro de 1956, ele escreveu a seu amigo Azeredo da Silveira, colega no Itamaraty, contando o seguinte:
“Passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairante, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia. […] Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente”.
Recebido com aplausos pela crítica, principalmente por suas inovações linguísticas, o livro foi um dos mais vendidos durante meses, a partir de julho de 1956, e venceu prêmios literários como o Machado de Assis. Em 2002, “Grande Sertão: Veredas” integrou a lista dos 100 melhores livros de todos os tempos do Clube do Livro da Noruega. O romance foi a única obra brasileira na relação selecionada por 100 escritores de 54 países.
Brasil profundo no olhar de Graça Craidy
Na leitura de Graça, “Grande Sertão: Veredas” retrata “o Brasil profundo, em plena mudança do Império para República, a contragosto dos senhores de terra e coronéis que viam no poder central republicano a anulação do seu poder histórico exercido nas pequenas comarcas desde o tempo das sesmarias”.
Para ela, “naquele momento histórico de surdas batalhas entre fazendeiros e seus jagunços contra a polícia e os novos políticos representando a República, um sertão recortado por rios, veredas, coqueiros-buritis, pássaros e animais selvagens acoita homens comuns incomuns à cata de poder e de Deus, em fuga da morte e do Diabo, divididos entre o bem e o mal, regurgitando questões caras à humanidade, como o amor, e mais que amor, o amor entre dois guerreiros: Riobaldo e Diadorim”.
Serviço — exposição em Niterói
Exposição: “Grande sertão”
Artista: Graça Craidy
Abertura: sábado (7/2), às 15h30, incluindo pocket show do ator Gilson de Barros
Visitação: de 2ª a 6ª, das 11h às 18h; sábado, das 13h às 18h, até 28 de março
Local: Espaço Cultural Correios, Av. Visconde do Rio Branco, 481, Centro, Niterói, RJ
Entrada: franca
Com acesso gratuito, a exposição reforça o papel de Niterói na difusão da cultura, da literatura brasileira e da memória de um dos maiores clássicos do país.
Matéria na íntegra: https://cidadedeniteroi.com/agenda/exposicao-em-niteroi-celebra-70-anos-de-grande-sertao-veredas/
10/02/2026