Fez 130 anos. No dia 28 de dezembro de 1895, os irmãos Auguste e Louis Lumière projetaram seu filmete (50 segundos) "A Saída da Fábrica Lumière em Lyon" numa sala em Paris, e 33 felizes pagantes assistiram ao nascimento do cinema como uma experiência coletiva. Na época, ainda sob Thomas Edison, já se viam imagens em movimento, mas só por uma pessoa de cada vez, espiando pelo buraquinho de uma caixa mágica. Era um ato solitário, individual. Já o filme projetado numa parede gerava emoções em conjunto, uma levando à outra. Era revolucionário. Para o bem ou para o mal, talvez nenhuma outra forma de expressão tenha sido tão vital para o século 20.
Não me refiro às telas que cresceram, ganharam som, cor, 3D, vastidões cinerâmicas e outros recursos para continuar atraindo as multidões para as salas. Mas ao fato de que, pela primeira vez, milhões de pessoas podiam partilhar sensações, anseios e certezas simultaneamente. Sem o cinema, o comunismo, o fascismo e o nazismo não arrebatariam as massas —nenhum pregador poderia converter tanta gente e tão rapidamente à custa só dos pulmões.
Em 1946, só nos EUA 90 milhões de pessoas iam por semana ao cinema —o dobro da população do Brasil. As pessoas riam, choravam ou tremiam de medo espremidas nas milhares de salas de cinema de cada país. Em 1960, os 45 segundos de duração da sequência de facadas no chuveiro em "Psicose" abalavam multidões ao mesmo tempo, não indivíduos.
Desde então, muita coisa no cinema contribuiu para minar essa experiência comum: o fim dos palácios, os filmes pela TV, os vídeos domésticos —primeiro, o 16 mm; depois, em sucessão, o VHS, o laser disc, o DVD e o Blu-ray. Agora, com o celular e o streaming, a plateia se resume, mais do que nunca, a cada um por si.
Sei bem que já não dependemos do cinema para as emoções em massa. Mas o cinema continua e continuará a existir. As salas é que passaram a respirar por aparelhos. Lumière, quem diria, perdeu. Voltamos a Edison e ao buraquinho na caixa mágica.