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Menino, eu tinha pavor de advogado. Agora assino prefácio de causos de Antonio Mariz de Oliveira

 

Menino, em Araraquara, eu tinha pavor de advogado. Pelas conversas que ouvia, temia o doutor Junqueira. Não sei se era Diniz Junqueira, gente tradicional. Ganhava todas no fórum, tinha uma voz tonitruante. Mais tarde, jovem jornalista, eu o conheci – a lenda era amável.

Como jornalista, convivi com muitos advogados, alguns dos maiores desta cidade. Não para me defenderem em processos, mas para me darem entrevistas. Uma tarde, na Feira do Livro da Associação dos Advogados, saltou no palco um homem grande e ágil, me entregou dois livros e disse que me ligaria. Era o Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, célebre, campeão dos júris. Ali se iniciou nossa amizade, que cresceu a ponto de eu ter feito o prefácio de seu livro Casos e Causos. A Trajetória de um Defensor.

Para quem, como eu, adora filmes, júris e tribunais, aqui está uma delícia. Quem assiste a Law and Order vai se regalar. Tem suspense, drama, humor, psicologia, fofocas, anedotas – e teor jurídico, claro.

Por aqui passam os maiores nomes da advocacia paulistana. Conheça o grupo da “Praça da Alegria” e o “Clube do Veneno”. Por essas páginas desfilam, com humor e leveza, os maiores nomes de nossos tribunais, os acusados, os culpados, os inocentes, os jurados, os momentos de suspense. Aqui está a tensão em que vive um defensor, os debates quase heroicos na sala de julgamento, os impasses, a tensão contínua, as explosões de riso. Posso dizer que não se passam três páginas e você ri.

Em uma pequena cidade, diante do Fórum, passa um animal e relincha. Neste instante, o promotor indaga ao advogado de defesa: “Por acaso o senhor está dando um aparte?”. O advogado retruca: “Não, o senhor ouviu o eco de sua própria voz”.

Sem esquecer o júri em que Mariz, que engordava e emagrecia, sentiu que sua calça deslizava para os pés em plena tribuna. A beca escondeu, mas como sair da tribuna?

Há aqui extensa gama de personagens, réus, promotores, juízes, catedráticos, jurados, oficiais de justiça, assassinos, ladrões, testemunhas, em um livro que é dos mais insólitos e agradáveis retratos da Justiça. Devia ser adotado nas faculdades.

Veja o título de um capítulo – Juri-Paco de Improvisação e Graça. Aqui fica o real. Mariz percorre extensa gama de fatos. Gosto desta definição: o escritório de advocacia é um laboratório excepcional da alma onde a condição humana é revelada.

Pura literatura.

Estadão, 08/02/2026