Tom Jobim teria feito 99 anos no domingo (25). A imprensa não ligou muito para a data, talvez se guardando para os 100 a serem comemorados em 2027. Por mim, tudo bem, e, aliás, não vejo diferença entre datas redondas e quadradas. Os grandes nomes não precisam de efemérides para ser lembrados. Basta que surja um ângulo novo ou uma informação digna de ser publicada. No caso de Tom, o que me esmaga é que, com toda a obra que deixou, tenha vivido apenas 67 anos —morreu no dia 8 de dezembro de 1994. Para os padrões de hoje, muito jovem.
Para os de 1994, também. Tom morreu de parada cardíaca, na UTI do Mount Sinai Hospital, em Nova York, dois dias depois de uma cirurgia de tumor na bexiga. Falou-se de erro médico, já que os cirurgiões americanos sabiam de sua condição vascular, constatada dois meses antes, quando ele se submetera, lá mesmo, a exames preparatórios. Diante das duas cirurgias, Tom teria insistido em priorizar a da bexiga —a do coração, quando estivesse recuperado. A da bexiga correu bem. Mas sua carótida e coronária obstruídas não esperaram. Deixar a decisão com o paciente não será um erro?
Poucos meses antes, eu fora à sua casa com o produtor Almir Chediak. Iam discutir a participação de Tom no songbook de Noel Rosa que Chediak estava preparando. Tom se decidiu por "Três Apitos", e tive o privilégio de ouvir o samba de Noel saindo de seu piano como se naquele momento ele descobrisse seus segredos. Ali, Tom não tinha 67 anos —parecia um garoto, tal sua expressão maravilhada diante do que Noel, que não sabia música, realizara.
Mas a vida toca por prosa, não por poesia. Tom se foi cedo, como muitos ao seu redor. Seu pai, Jorge Jobim, morreu aos 46 anos. Seus parceiros Vinicius de Moraes, aos 66, e Newton Mendonça, aos 33. Suas admirações, Ary Barroso, aos 60, George Gershwin, aos 38, e Custodio Mesquita, aos 34. O próprio Noel, aos incríveis 26. E o homem que, no fundo, ele queria ser, Villa-Lobos, chegou aos 72, até ser derrubado por um tumor.
Ironicamente, de bexiga.
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