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ABL na mídia - Quatro cinco um - Ana Maria Machado critica excesso de didatismo na literatura brasileira hoje

Instada a opinar sobre a literatura infantojuvenil produzida no Brasil hoje, Ana Machado Machado se divide entre a admiração e a crítica. De um lado, ela celebra a diversidade crescente das obras que chegam às livrarias, assinadas por autores de diferentes etnias, classes e regiões do país. De outro, critica o que considera um didatismo excessivo não só das publicações voltadas às crianças, como também aos adultos. LISTÃO Uma vontade louca Ana Maria Machado Ils. Carla Irustra Editora Global // 144 pp • R$ 79 Listão “O problema da literatura hoje é que ela acha que tem que ensinar coisas o tempo todo. Mas a literatura é arte, é linguagem, não é um projeto pedagógico.” A declaração da vencedora do prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura para crianças e jovens, foi feita na manhã desta sexta-feira (5), em um encontro com o público d’A Feira do Livro que terminou aplaudido de pé.

Apesar de ser uma das mais importantes autoras infantojuvenis do país, a conversa da escritora com Hubert Alquéres, vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), centrou-se menos nesse aspecto mais conhecido de sua carreira do que em outra faceta sua: a atuação como jornalista na época da ditadura.

Machado contou, aliás, que foi a sua experiência na imprensa que provocou o seu primeiro contato com a literatura infantojuvenil. Em 1969, ela, Joel Rufino e Ruth Rocha foram convidados pela editora Abril para escrever contos para uma revista que viria a ser a Recreio.

Seus nomes haviam sido escolhidos justamente porque nenhum deles escrevia para crianças ou adolescentes. Os editores, relembrou Machado, faziam questão de que a linguagem da revista não fosse de “‘nhém-nhém-nhém’ ou ‘tatibitati’”.

Questionada por alguém na plateia sobre as diferenças entre escrever para os públicos infantil e adulto, Machado respondeu com um gracejo. “Vocês por acaso só gostam de adultos ou de crianças?”, provocou, suscitando risos e aplausos. “O que me leva a escrever é que eu gosto de linguagem e gosto de gente. E a literatura é um ótimo jeito de exercitar esses dois amores.”

Censura ontem e hoje

Na conversa, Machado deteve-se em especial no período que passou à frente da Rádio Jornal do Brasil, na década de 80. Ela contou que, quando assumiu a chefia do departamento de jornalismo do veículo, ele vivia um momento delicado — mais um desafio à censura e a rádio seria tirada do ar.

A solução que ela e a equipe encontraram para não bater de frente com os militares foi noticiar eventos que sabiam que seriam censurados de forma indireta. Por exemplo, registrando uma manifestação contra o regime por meio dos efeitos que ela tinha provocado no trânsito. “O ouvinte foi se acostumando a ouvir nas entrelinhas”, disse.

Alquéres aproveitou o comentário para questionar Machado sobre um episódio recente de tentativa de censura, em que pais dos alunos de um colégio militar no Distrito Federal se organizaram para pedir a retirada do livro A bolsa amarela, de Lygia Bojunga, do rol de leituras obrigatórias.

Machado respondeu dizendo acreditar que a censura praticada hoje é fundamentalmente diferente daquela do regime militar. No passado, disse, os vetos partiam de cima, de autoridades governamentais, e eram implementados verticalmente. A que se pratica hoje, por outro lado, é circular, com denúncias vindo de todos os lados.

“É uma coisa muito séria, esse mecanismo de proibições. É gente que se acha no direito de nos proibir de imaginar só porque algo não está exatamente de acordo com o que eles pensam do mundo.”

A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

Matéria na íntegra: https://quatrocincoum.com.br/noticias/a-feira-do-livro/a-feira-do-livro-2026/ana-maria-machado-critica-excesso-de-didatismo-na-literatura-brasileira-hoje/

08/06/2026