Como diria o Conselheiro Acácio, o acaso —ou o destino, sei lá— pode jogar contra ou a favor. Imagine uma gravadora de discos dedicada à música de sua região, por acaso Pernambuco, chamada Mocambo. Certo dia, nos anos 1960, seu proprietário resolveu expandir seu mercado. Como gostava de jazz, contratou um amigo, também pernambucano, residente no Rio, para criar uma linha de discos do gênero. O amigo se chamava Jonas Silva, ex-balconista das famosas Lojas Murray e expert em jazz. Não apenas isso, fora crooner do grupo vocal Garotos da Lua, que, em 1950, na Rádio Tupi, revelara um jovem cantor chamado João Gilberto.
Jonas começou a criar um catálogo jazzístico para a Mocambo. Como não havia dinheiro para as novidades dos grandes cartazes —Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Dave Brubeck—, foi buscar os menos famosos, que ele também adorava. Um deles, "Clifford Brown Memorial", do selo francês Vogue. Clifford Brown era um trompetista morto num acidente de carro em 1956, aos 25 anos. Fora uma das mortes mais sentidas do jazz, pelo enorme talento que se perdia. Para alguns, Clifford seria "o novo Dizzy". Para outros, ele é que teria sido o verdadeiro Miles Davis se não tivesse morrido.
"Clifford Brown Memorial" era composto das incríveis faixas que ele gravara em Paris em 1953, meio às escondidas, com músicos locais. Em seguida, já na Califórnia, criou um superquinteto com o baterista Max Roach, tocou e gravou com todos os cobras, ajudou a criar um novo estilo, o hard bop, e compôs dois temas que ficariam clássicos, "Joy Spring" e "Daahoud". Sua discografia, incluindo o material póstumo, ocupa hoje dezenas de CDs.
Por outro acaso —ou destino, a meu favor—, descobri seu LP lançado pela Mocambo nos fundos de um sebo de discos do Rio, no chão, em 1966. Em casa, botei-o para tocar e não acreditei. Tenho-o até hoje e é um dos discos que eu levaria para uma ilha deserta.
Dentro de um mês, 26 de junho, serão 70 anos da morte de Clifford Brown. O destino, no caso, jogou contra o jazz.