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Jamais esqueço do livro que nasceu de tudo o que a censura determinou

Quando cheguei a este prédio na Rua João Moura, em 1990, a cada manhã havia na portaria uma pilha com cem jornais. O porteiro sabia o destino de cada um e saía a distribuí-los. Às 8 horas, já estavam em minha casa a Folha e o Estadão. Anos antes, aos domingos, também recebia o Shopping News, no qual comecei a fazer crônicas semanais, passando depois para a Folha, levado pelo Adilson Laranjeira, até que finalmente vim para o Estadão. Agora, no final de maio de 2026, toda manhã encontro na portaria apenas o Estadão e a Folha para mim, e o Estadão para outra moradora, a Yara.

Leio e recorto meus dois jornais. Notícias, reportagens, anúncios, pequenas notas, etc. Coloco em pastas. Costume que adquiri há décadas. Junto aos apontamentos feitos à mão em cadernetinhas – hábito que vem da infância, instigado pelas professoras Lourdes e Ruth, e que é a base para minhas crônicas, contos e romances, além daquilo que me vem à cabeça. Esse é meu método: a realidade somada ao imaginário.

Por que tudo isso? Há tempos penso em como farei quando os jornais desaparecerem de vez, restando o digital. Um desafio? Recorrer apenas às minhas observações à mão e aos súbitos insights? Como fizeram todos os grandes que vieram antes e me influenciaram e me encaminharam para o que sou? Jamais me esqueço do meu romance Zero, que causou impacto, rumores e a proibição pela censura nos anos 1970. Ele nasceu de tudo o que a censura de Armando Falcão determinou. Proibiu sob pena de prisão. Eu era, naquela época, um dos editores na Última Hora e o censor oficial se sentava ao meu lado, determinando: “Isso passa, isso não!”. Tudo o que não passou se transformou em um romance odiado e proibido pelos generais.

Como todo idoso, tenho certa dificuldade em manipular o mundo digital. Copio, corto, arquivo, reescrevo, utilizo. Mas estou a alguns passos de meu fim. Neste mês faço 90 anos. Quanto tempo ainda sobreviverei? Vivi como queria, escrevi o que desejava. Cheguei a um romance que está na Global – editora na qual publico há 40 anos. Chama-se Risco de Queda. Por quê? Estou sempre em risco de queda; o Brasil está, o mundo também com prováveis novos conflitos, com o poder nuclear, a corrupção, os Vorcaros nacionais e internacionais, Putin, Trump...

Ou ainda escreverei um roteiro de cinema com meu sonho de juventude? Ou este será o último romance? A derradeira crônica, tão gostosa de escrever? Sei lá! Não por mim. Ou, exatamente por mim, se é que me entendem.

Estadão, 31/05/2026